Bebidas adulteradas com metanol: conversamos com destilarias de Curitiba sobre os casos em SP e sobre o que podemos fazer para evitar riscos
Com todos esses casos de intoxicação por destilados adulterados com metanol, muita gente está preocupada e com medo de beber drinks fora de casa.
Já são mais de vinte casos de pessoas intoxicadas em São Paulo, e três bares de lá foram interditados, até em bairros nobres como o Jardins. Mais de 800 garrafas foram apreendidas na capital paulista só nesta segunda e terça (29 e 30/set), e clubes de São Paulo estão suspendendo a venda de destilados de forma temporária. A investigação está sendo feita pela Polícia Federal, e ainda não se sabe se o caso vai além do estado de São Paulo, ou se a adulteração está relacionada ao crime organizado, como tem sido especulado.
O fato é que mais do que nunca é importante evitar bebidas duvidosas, muito baratas ou sem garantia de procedência.
MAS COMO SABER SE A BEBIDA É REALMENTE SEGURA PARA CONSUMO? Para entender melhor sobre o tema, e sobre a diferença entre metanol e etanol, conversamos com 3 empresas que produzem destilados em Curitiba e região:
- HAMBRE DESTILARIA, de Pinhais, que foi a primeira destilaria artesanal do Paraná a produzir gin (que já recebeu prêmios internacionais como o World Gin Awards) e hoje está presente em 17 estados.
- BACCO DESTILADOS, que fica em Pinhais, existe desde 2017 e já teve sua vodka premiada como a melhor do Brasil.
- S.A.L. SPIRITS – SMALL AND LOCAL, uma destilaria pequena e artesanal que funciona no bairro Orleans junto à cervejaria Alright.
O assunto é tão complexo, que a matéria virou um verdadeiro dossiê sobre o caso do metanol nas bebidas. Para facilitar, dividimos o conteúdo em 8 partes:
1. Bebidas seguras ou batizadas – como reconhecer
2. Processo produtivo de destilados – como funciona
3. Impacto do Mercado – como as destilarias estão sendo afetadas
4. Teorias sobre a adulteração com metanol
5. Visita à destilaria – é possível?
6. Recado das destilarias para nossos leitores
7. Diferença entre Metanol e Etanol
8. Intoxicação por metanol – o que acontece no corpo
1. Bebidas seguras ou batizadas
Como saber se a bebida não foi batizada? Guilherme Bossoni (Diretor Industrial e Mestre Destilador da Hambre) e Raphaela Fernandes (Gerente de Marketing da Hambre) dão algumas dicas para o consumidor verificar ao fazer a compra:
“O consumidor deve sempre buscar produtos de origem confiável. É fundamental verificar se a empresa produtora possui registro legal no segmento, CNPJ ativo, selo IPI, registro no MAPA, lacre e rolha intactos, identificação do fabricante e número de lote. Desconfie de preços muito abaixo do mercado ou de vendas em pontos não oficiais. Prefira marcas que você conhece e confia, especialmente locais ou artesanais, que permitem proximidade e acompanhamento do processo de produção. Em bares e restaurantes, não hesite em questionar a procedência da bebida. Essas atitudes são a melhor forma de garantir segurança e consumo consciente”.
“É natural que consumidores fiquem receosos, e nós sentimos diretamente esse impacto. Porém, reforçamos que nossa produção segue protocolos rigorosos de segurança, rastreabilidade e higiene, garantindo que cada garrafa que chega ao consumidor seja segura e legítima. No entanto, queremos deixar claro como funciona a produção na Hambre Destilaria para que o público saiba diferenciar um produto confiável de um risco”, completam Guilherme e Raphaela da Hambre.
“Estamos acompanhando com atenção as recentes notícias sobre bebidas adulteradas com metanol e como esse cenário vem gerando insegurança para o setor e impactando diretamente o consumo. É um momento de reforçar a confiança e o trabalho dedicado das marcas que atuam prezando pela qualidade e segurança no ramo. Nossos processos de produção são rigorosamente controlados, com o uso exclusivo de insumos certificados e aplicação da destilação por retificação, técnica que assegura a eliminação de substâncias indesejadas. Com elevados padrões de Pesquisa & Desenvolvimento, reforçamos nosso compromisso com a integridade de nossos produtos e com a proteção dos consumidores” afirma José Henrique Tomasson, diretor e cofundador da Bacco Destilados
“Produzimos diversos destilados e bebidas prontas para consumo. Nossa produção segue processos rigorosos, com o uso de ingredientes de qualidade, respeitando os parâmetros específicos para cada produto” , relata Marlus Moser, proprietário da S.A.L. Spirits.
2. Processo produtivo de destilados
Como funciona a produção de um destilado? Para entender mais sobre o processo produtivo, a Hambre Destilaria fez um resumo a respeito:
“Todo o processo da Hambre Destilaria é pensado para entregar segurança e qualidade em cada garrafa. Utilizamos apenas álcool próprio para consumo humano, que é cuidadosamente selecionado e certificado: por exemplo, o nosso gin e a nossa vodka são produzidos com álcool de cereais, entre outros destilados. Durante a produção, adicionamos os botânicos (quando inclusos no produto) e conduzimos a destilação no alambique com cortes técnicos precisos.
* Cabeça – no início da destilação, onde podem aparecer compostos indesejáveis, inclusive traços de metanol, se houver falhas em processos inadequados. Essa parte é sempre e integralmente descartada.
* Coração – fração nobre, que compõe o destilado que será engarrafado; esta parte, quando o processo é bem executado, contém etanol seguro, sabor, aroma.
* Cauda – frações finais, com resíduos pesados, álcoois superiores, que também são descartadas.
Esse processo técnico, aliado a controle rigoroso de higiene e manutenção, garante que qualquer possibilidade de presença de compostos indesejados seja eliminada.
Além disso, todos os produtos recebem lacres, rótulos, selo IPI, registro de lote e documentação completa, e retendo-se uma garrafa de cada lote para rastreabilidade e possíveis fiscalizações futuras. Todo esse cuidado visa entregar ao consumidor um produto confiável, legítimo e produzido com responsabilidade”, explicam Guilherme e Raphaela da Hambre.
3. Impacto do Mercado
Com tantos casos de adulteração de bebidas, muita gente está com medo de beber destilados. As destilarias locais, que trabalham produzindo destilados de qualidade, acabam sendo diretamente afetados por essa situação. Perguntamos para as destilarias como elas têm sentido esse impacto do mercado.
“De forma curiosa, o impacto tem sido até positivo em alguns aspectos. Muitos parceiros estão valorizando ainda mais a transparência e a responsabilidade que sempre tivemos. Nossa postura desde o início foi de abrir as portas da destilaria para que fornecedores, revendedores e parceiros conheçam de perto o processo produtivo.
No entanto, temos reforçado a comunicação sobre nossa produção de destilados e nossa postura transparente. Esse posicionamento fortalece a confiança e permite que nossos clientes se sintam seguros para continuar consumindo e comercializando nossos destilados. A transparência é nossa principal aliada em momentos de crise, mostrando que não temos nada a esconder. Essa proximidade gera confiança. Acreditamos que este é o momento de reforçar a importância de consumir produtos de origem legítima, com registro, selo e fiscalização”, relatam Guilherme e Raphaela da Hambre.
4. Teorias sobre a adulteração com metanol
Tem muitas teorias e especulações sobre como esta adulteração com metanol está acontecendo, incluindo envolvendo o PCC. Perguntamos para as destilariras em que momento ou de que maneira elas acreditam que essas adulterações estão acontecendo e o que poderia ser feito a respeito, em termos de fiscalização ou controle.
“Os casos de adulteração são muito recentes e graves, mas ainda não há como mensurar o impacto no mercado. Somente investigações feitas pelos devidos órgãos poderão esclarecer como isso foi feito e quais são os responsáveis”, opina Marlus Moser, proprietário da S.A.L. Spirits.
“Acreditamos que na maior parte as adulterações acontecem em ambientes ilegais, fora do controle de indústrias sérias e responsáveis. Podem ocorrer por fraude, quando produtores clandestinos adicionam metanol para reduzir custos, por contaminação em destilações feitas de forma incorreta ou por adulteração criminosa, quando falsificadores misturam metanol em bebidas já embaladas para obter lucro rápido. A prevenção exige fiscalização mais rigorosa, tanto na produção quanto na distribuição, além de educação do consumidor sobre como identificar produtos legítimos. Também é necessário um controle legal efetivo e punição severa para quem pratica essas atividades, garantindo proteção à saúde pública” opinam Guilherme e Raphaela da Hambre Destilaria.
5. Visita à destilaria
Diante deste cenário de incertezas, as destilarias fazem questão de mostrar sua transparência, qualidade e controle no processo produtivo. Mas é preciso entrar em contato com antecedência para agendar uma visita.
“Frequentemente recebemos visitas aqui na S.A.L. Spirits e estamos abertos para quem tiver interesse, basta entrar em contato antes pelo nosso instagram” conta Marlus Moser, da S.A.L. Spirits.
“A visita à Bacco Destilaria está disponível para quem tiver interesse em conhecer de perto o processo de produção dos destilados. As portas estão abertas, clientes e visitantes são sempre bem-vindos, basta entrar em contato para agendar” relata José Henrique Tomasson, diretor e cofundador da Bacco Destilados
“Em alguns casos são possíveis realizar visitas na Hambre, mas somente mediante agendamento com nossos responsáveis. Recebemos principalmente parceiros e revendedores, garantindo que compreendam todo o processo e valorizem a segurança do produto que vendem. Por se tratar de um ambiente controlado e sensível, com normas rígidas de higiene e segurança, não é possível visitas livres ou permanentes nas áreas de produção, preservando a qualidade e a integridade do destilado” explicam Guilherme e Raphaela da Hambre.
6. Recado para nossos leitores
Perguntamos para as destilarias se tem algum recado que gostariam de dar para nossos leitores:
“Nosso recado é simples e firme: consuma sempre produtos de origem confiável, com rótulo, lacre, selo IPI e registro no MAPA. Conheça quem produz, questione sempre que tiver dúvida e prefira estabelecimentos sérios. Mesmo produtos corretos exigem consumo consciente. A Hambre Destilaria reafirma seu compromisso com cada cliente: entregamos bebidas seguras, legítimas e produzidas com responsabilidade. Mais do que destilados, entregamos confiança, transparência e respeito à saúde do consumidor” reforçam Guilherme Bossoni (Diretor Industrial e Mestre Destilador da Hambre) e Raphaela Fernandes (Gerente de Marketing da Hambre).
7. Diferença entre Metanol e Etanol
“O metanol é um álcool de uso industrial, encontrado em solventes, combustíveis e produtos químicos. Pequenas quantidades podem surgir naturalmente em fermentações devido à ação de microrganismos e decomposição, mas é justamente na destilação que conseguimos separar e eliminar esse componente. A diferença em relação ao etanol é fundamental:
* Etanol (álcool etílico) é o álcool encontrado em cervejas, vinhos, vodkas, gins e outras bebidas, produzido de forma controlada, seguro para consumo.
* Metanol é tóxico para o corpo humano, podendo causar intoxicação grave, perda de visão e até óbito.
É importante esclarecer que o metanol pode estar presente em pequenas quantidades em processos naturais de fermentação, como ocorre em frutas comuns, a exemplo da maçã. A diferença está no controle: na Hambre, seguimos protocolos rigorosos de destilação que garantem a separação correta das frações.
O que chega ao consumidor é apenas o ‘coração’, isto é, o etanol puro, seguro e próprio para consumo. Para se ter uma ideia, uma maçã pode conter naturalmente mais metanol do que uma dose de um destilado produzido de forma correta e dentro dos padrões de segurança” explicam Guilherme Bossoni (Diretor Industrial e Mestre Destilador da Hambre) e Raphaela Fernandes (Gerente de Marketing da Hambre).
8. Intoxicação por metanol
O álcool que bebemos, o etanol, é metabolizado em forma de acetato, que o corpo aproveita como fonte de energia. Já o metanol, ao ser consumido, é convertido em subprodutos tóxicos: formaldeído (formol), ácido fórmico (veneno das formigas) e formiato (com ação semelhante ao cianeto), podendo causar efeitos graves como cegueira, coma ou até a morte. Até pequenas quantidades podem ser letais: cerca de 10 ml de metanol puro pode causar cegueira e 30 ml pode causar a morte.
A diferença do sabor ou visual nas bebidas adulteradas é inexistente, dificultando a fiscalização e controle. Os sintomas de consumo de metanol envolvem vômito, confusão mental, visão turva, náusea e dor abdominal e se parecem com os de uma ressaca. A evolução dos sintomas é rápida e deve ser tratada imediatamente em um hospital, para evitar o agravamento.
Fora do Brasil recentemente foram notificados casos semelhantes, em Vang Vieng, no Laos, em Istambul e Ancara, na Turquia, e na Rússia.