A Cataia, conhecida como uísque caiçara, é tradicionalmente produzida pelas comunidades do litoral paranaense
Você já tomou cataia? Essa é uma pergunta que fazemos com frequência aos turistas que visitam Curitiba, especialmente quando fazemos o Tour de Boteco (passeio gastronômico por bares da capital paranaense). Não, é a resposta da maior parte deles – e a maioria nem nunca ouviu falar.
E infelizmente isso não é uma exclusividade dos turistas: ainda existem muitos moradores de Curitiba, e do Paraná, que não sabem o que é a Cataia, e não tem nem ideia da importância dela junto às comunidades litorâneas do nosso estado.
Mas isso está mudando. O reconhecimento da Cataia como Patrimônio Imaterial do Paraná vem em ótima hora. Há tantos anos sendo produzida nas comunidades da Barra do Ararapira, em Superagui, e em Guaraqueçaba, a Cataia merece ser conhecida em todo o estado, ou, melhor ainda, no Brasil e no mundo afora.
Mas afinal, o que é a Cataia?
A bebida cataia é conhecida como uisque caiçara, pela sua coloração, que lembra a de whisky, e por ser produzida pelas comunidades caiçaras. Ela é feita usando a folha da Cataia, espécie nativa da Mata Atlântica, presente em Superagui e Guaraqueçaba, que é infusionada na cachaça.
Em tupi, o nome da cataia significa “folha que queima”; seu nome científico é Pimenta Pseudocaryophyllus. Além da utilização na bebida, a folha tem propriedades medicinais, e é muito utilizada nas comunidades do litoral paranaense.
Originalmente as folhas eram utilizadas como chá. Foi em torno de 1985 que elas passaram a ser utilizadas na cachaça, dando origem à bebida. A produção da cataia está associada às práticas culturais, saberes tradicionais e identidade das comunidades locais.
Na Barra do Ararapira, em Superagui, seu Rubens Muniz foi o primeiro a curar as folhas da cataia na cachaça. E é a Associação de Mulheres da Barra do Ararapira quem, há mais de 20 anos, coleta as folhas e produz a bebida, realizando um trabalho importantíssimo no ciclo da cataia.
Patrimônio Imaterial do Paraná
Com a popularização da bebida, a demanda do destilado passou a impulsionar o turismo no litoral paranaense, e consequentemente uma maior procura pela planta. Desse modo, a exploração da cataia acabou por incorporar a renda dos extratores e revendedores da região, sendo um importante desenvolvedor econômico e cultural da região.
O projeto de lei que reconheceu a Cataia como Patrimônio Imaterial do Paraná foi aprovado nesta semana, e é de autoria do deputado Goura Nataraj.
“A conquista da cataia como patrimônio é muito importante para trazer visibilidade e fortalecer a presença da cataia junto à cultura caiçara. O objetivo é que esse trabalho associativo gere renda para as comunidades locais, junto com a preservação desse meio ambiente. E que também incentive as pessoas a consumir produtos locais, e valorizar os produtos do nosso território.
É muito importante que as características natuais e culturais do nosso estado sejam preservadas. Neste ano celebramos 40 anos do tombamento da Serra do Mar, e precisamos fortalecer os mecanismos de proteção do meio ambiente e das comunidades do litoral, caiçaras, quilombolas, indígenas” conta o deputado Goura, autor do projeto da lei que foi aprovada.
O reconhecimento da Bebida Cataia como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Paraná, reforça a importância cultural, econômica e medicinal da Cataia.
“A aprovação da lei da Cataia é um passo de visibilidade e reconhecimento público da importância da Cataia, mas buscamos também outras formas de proteção patrimonial. Também pensamos em buscar a indicação geográfica para a cataia. Estamos sempre buscando ações que valorizem nosso litoral, para preservação da natureza e da cultura, como a lei da pesca artesanal e da palmeira jussara, que aprovamos há alguns anos” , completa o deputado Goura.
Com a aprovação da lei, a expectativa é que de sejam promovidas ações de valorização e divulgação da Cataia, seja através do apoio a produtores artesanais ou através da realização de eventos culturais relacionados ao tema.
Onde tomar cataia em Curitiba
Atualmente é possível encontrar a cataia em diversos bares da cidade, seja em dose ou como parte de coqueteis.
O Cataia Bar, no Centro, desde 2022 realiza um forte trabalho de divulgação da Cataia. O bar surgiu como um movimento, buscando valorizar a cultura caiçara e ser um espaço democrático, antirracista e seguro para a comunidade LGBT+. Eles atuam em movimentos e eventos de revitalização cultural do centro, e tem apresentações musicais variadas, com forró, samba, MPB e fandango (incluive neste sábado, 15, tem Baile de Fandango no bar). E, claro, oferecem diversas opções de drinks com cataia. “Reconhecer a cataia como patrimônio cultural paranaense é enaltecer a cultura caiçara, do povo que fundou as cidades berço do Paraná e tantas outras tradições. Como dizem os fandangueiros: Amanheceee!” opina Guilherme Wakiuchi, proprietário do Cataia Bar @cataiabarcwb .
A Onça Bêbada, no São Francisco, é uma cacharia artesanal que busca valorizar a cultura local. O nome faz uma brincadeira com a carne de onça, prato típico parananense. As lojas vendem cachaças e drinks autorais, utilzando ingredientes como cumaru, dendê, e, claro, cataia. Na Galeria das Ruínas, junto às Ruínas do São Francisco, a primeira loja oferece degustações e uma variedade incrível de bebidas; a segunda loja fica na Rua São Francisco. @onca.bebada
O Cachaceiro, bar que fica no Campo Comprido, oferece doses de cataia de fabricação própria, da marca Daga. Além das cachaças e cataias, a Daga tem licores em sabores variados, como jabuticaba, capim limão, e jambu. @ocachaceirocwb
O Jangaroo, restaurante especializado em frutos do mar, tem uma Cataia Jangada, produzida pelo chef Brunno Pimentel, e serve uma deliciosa capiriinha de cataia com limão. O Jangaroo fica no Shopping Jockey Plaza. @restaurantejangaroo
A Cachaçaria Vô Milano, há 18 anos no Mercado Municipal, oferece mais de 400 rótulos de cachaça, inclusive algumas com fabricação própria, e também tem opções de cataia para venda. @vomilanocachacaria
O Nosso Boteco, no Boa Vista, é o herdeiro oficial do seu Gilson, o famoso cataieiro de Curitiba, que se aposentou no ano passado e ensinou sua receita (com segredinho e tudo) para o Sid, dono do Nosso Boteco. O Sid comprou várias barricas de carvalho do seu Gilson e tem feito cataias excelentes por lá. @nossoboteco_curitiba
(foto de capa: crédito Antônio Nunes, da Gazeta do Povo)