Fundada em 1966, a casa atravessa gerações, preserva receitas e chega às seis décadas como ponto de encontro de famílias curitibanas e turistas
No dia 28 de setembro, o Restaurante Imperial completa 60 anos de uma história que se confunde com a do centro de Curitiba. Inaugurada em 1966, o local acompanhou as transformações da região, atravessou mudanças de hábitos e de gerações e se consolidou como um endereço de memória, convivência e boa mesa, tendo atualmente o Filé Mignon à Parmegiana como sua grande estrela e um dos símbolos dessa trajetória. Hoje, recebe em média 500 pessoas por dia entre almoço e jantar, um movimento que ajuda a dimensionar a presença do restaurante na rotina da cidade.
Mais do que a longevidade de um negócio, o aniversário celebra os vínculos construídos ao redor das mesas. Há clientes que conheceram o restaurante com os pais ou avós e agora retornam com os próprios filhos. No salão, diferentes gerações dividem o mesmo ambiente, preservando um clima familiar que se tornou uma das marcas da casa.
“O Imperial vive e respira o centro de Curitiba. Sentimos que ele já não é simplesmente um comércio: faz parte da memória de muitas pessoas. Procuramos cuidar do restaurante como se fosse um patrimônio da cidade, porque entendemos que nossa responsabilidade vai além de sermos seus proprietários”, afirma Sergio Chueh.
Das origens ibéricas ao encontro de gerações
O Imperial abriu as portas na Rua José Loureiro, 135, pelas mãos dos imigrantes Victoriano Touron Souto, conhecido como Vitor, e Manuel Rosa Henriques. Um era espanhol; o outro, português. Atualmente, o restaurante funciona no número 111 da mesma rua, mantendo viva sua ligação histórica com o Centro de Curitiba. O nome escolhido remetia a uma palavra então bastante utilizada comercialmente nos países de origem dos fundadores e associada à tradição, à elegância e ao prestígio. O pequeno restaurante, com cerca de 50 metros quadrados, tinha poucas mesas, balcão e cozinha modestos.
Nos primeiros anos, o endereço funcionava como um pequeno boteco, frequentado sobretudo por homens depois do trabalho. O cardápio reunia petiscos de bar, receitas brasileiras e pratos de influência ibérica, como paella, bacalhau e risoto de polvo. A qualidade da cozinha espanhola, portuguesa e brasileira conquistou a clientela e, com o passar dos anos, o público cresceu. Vieram as famílias, os grupos de amigos e novas gerações de frequentadores.
Em 1997, após mais de três décadas à frente da casa, Victoriano decidiu se aposentar e vendeu o restaurante aos irmãos Sergio e Marcos Chueh, filhos de um antigo cliente. Jovens, eles assumiram o desafio de conduzir um estabelecimento já profundamente ligado à memória dos curitibanos. Em 2014, Marcos deixou a sociedade e Sergio, que é nutricionista, passou a responder integralmente pela gestão ao lado da esposa, Leticia.
“Quando assumimos, o Imperial já tinha mais de 30 anos de tradição. Muitos clientes antigos ficaram receosos, com medo de que aquela história se perdesse. Aos poucos, mostramos que era possível modernizar o que fosse necessário e, ao mesmo tempo, preservar a essência que havia trazido o restaurante até ali. Estamos à frente da casa há quase 30 anos, praticamente metade de sua história, e temos muito respeito por tudo o que recebemos e construímos”, conta Chueh.
Uma nova casa para preservar a mesma essência
O ano de 2020 marcou uma das passagens mais difíceis da trajetória do Imperial. Em meio à pandemia, o restaurante perdeu Ramiro Gil Sobrado, o “Espanhol”, garçom que trabalhou na casa por 45 anos e se tornou parte da história afetiva do endereço. No mesmo período, depois de 55 anos no imóvel original, foi preciso tomar a decisão de mudar o restaurante de lugar.
A transferência ocorreu para o segundo e atual endereço do restaurante, no número 111 da mesma Rua José Loureiro, a poucos metros do imóvel de fundação. O espaço abrigou a antiga redação do Diário do Paraná, um dos jornais que marcaram a história da imprensa no estado. Maior, mais confortável e acolhedora, a sede atual permitiu que o Imperial se adaptasse ao novo perfil de público sem romper sua ligação com o centro. As paredes exibem fotografias históricas de Curitiba e imagens de garçons veteranos, entre eles Ramiro e Pedro dos Santos, o “Periga”, outro colaborador que dedicou 45 anos à casa.
A equipe continua sendo parte fundamental dessa continuidade. Entre os profissionais em atividade, o mais antigo é o garçom Edson Luiz Garret, que trabalha no Imperial desde 2007. A memória dos funcionários aposentados e daqueles que já faleceram também permanece presente no cotidiano do restaurante.
“A pandemia foi, sem dúvida, a maior prova que enfrentamos. Perdemos o Ramiro, passamos por todas as dificuldades daquele período e ainda tivemos que mudar de endereço. Foi uma decisão arriscada e um momento de muita incerteza, mas conseguimos iniciar um novo capítulo sem perder aquilo que sempre procuramos preservar”, relembra o proprietário.
Receitas que atravessam o tempo
A história do Imperial também pode ser contada pelo cardápio. As paellas Marinera e Valenciana estão entre as receitas mais antigas e mantêm viva a influência espanhola das origens, atualmente são servidas sob encomenda. Ao lado delas permanecem pratos como tutu de feijão, dobradinha, feijoada, língua com purê e ervilhas, costela assada, churrasco de igreja e diferentes preparos com filé mignon.
A principal estrela da casa, entretanto, é o Filé à Parmegiana, receita que se tornou um dos maiores símbolos do Imperial e um dos principais motivos que levam novos clientes ao restaurante. Servido há décadas, o prato recebeu atenção crescente ao longo dos anos, com aprimoramentos no molho, nos queijos e na seleção dos ingredientes, sempre com filé mignon. A maciez é apresentada diante do cliente: o garçom corta a carne com uma colher à mesa. Em 2023, uma divulgação do perfil Hashtag Curitiba ampliou o alcance da receita e ajudou a transformá-la definitivamente em um símbolo do Imperial. Em sábados de grande movimento, cerca de 300 parmegianas podem ser servidas somente no almoço. Mais de uma tonelada de filé mignon é consumido mensalmente.
Entre as receitas com origem familiar está o Mignon à Imperial, criado por Farid Chueh, pai de Sergio e Marcos. Preparado inicialmente nos almoços de domingo da família, o prato chegou ao menu do restaurante e ganhou significado especial. O filé é grelhado na manteiga e servido com aspargos, cogumelos, palmito, brócolis, arroz branco e batatas rústicas.
O cardápio reúne ainda dezenas de pratos que fazem sucesso entre o público, a alcatra Orelha de Elefante, o Ancho ao Alho e Óleo, a costela assada das sextas-feiras e o Filé Mignon ao Queijo Azul, grelhado e servido com molho de queijo azul, arroz e batatas fritas à portuguesa. À noite, a casa retomou a tradição dos petiscos de boteco, com bolinhos de siri e carne, cascudinho à milanesa, pão com bolinho e pão com costela, além de pratos principais.
Para acompanhar, a carta de bebidas privilegia clássicos da coquetelaria, como Aperol Spritz, Cosmopolitan, Daiquiri, Dry Martini, Rabo de Galo e Negroni. O conjunto traduz a maneira como o Imperial busca permanecer atual: incorporando novidades e acompanhando os hábitos do público, mas mantendo no centro da experiência as receitas, o atendimento cordial e a convivência à mesa.
Um restaurante ligado à vida cultural e cotidiana da cidade
Ao longo de seis décadas, o Imperial recebeu nomes da música, do futebol, da imprensa, do esporte, da política e das artes. Entre os visitantes lembrados pela casa estão Cauby Peixoto, Teixeirinha e Hermeto Pascoal. Para os proprietários, contudo, a trajetória foi construída por cada pessoa que entrou pela porta do restaurante.
O público atual reflete essa diversidade. Pessoas de 20, 40, 60 e 80 anos compartilham o salão, muitas vezes na mesma família. A transformação também aparece no serviço: há alguns anos, o atendimento no balcão foi encerrado à medida que o Imperial se consolidou como restaurante familiar.
“Chegar aos 60 anos em uma cidade que viu tantos restaurantes tradicionais fecharem ou se transformarem significa muito. Traz, principalmente, gratidão. É resultado do trabalho diário, da união da equipe e do carinho dos clientes que continuam escolhendo o Imperial. O básico precisa ser cuidado todos os dias: comida bem feita, bons ingredientes, atendimento cordial e um ambiente onde as pessoas se sintam bem. E é preciso entregar aquilo que se promete”, destaca Chueh.
Reconhecimento e futuro
A dedicação à tradição, aliada à capacidade de acompanhar a cidade, também rendeu reconhecimento. O Imperial foi eleito por três anos consecutivos o Melhor Restaurante para Ir no Centro de Curitiba no Prêmio Bom Gourmet, em 2024, 2025 e 2026. Conquistou ainda, por duas edições seguidas, o título de Melhor Parmegiana da Cidade, em 2025 e 2026, e venceu a categoria Melhor Restaurante para Levar um Turista em 2026. Na edição 2018/2019 do prêmio Veja Comer & Beber Curitiba, subiu ao pódio na categoria Bom e Barato.
Aos 60 anos, o Imperial projeta o futuro com a mesma atenção que dedicou ao passado. A intenção é preservar o legado de uma tradição que continua viva: uma casa antiga, capaz de manter o carinho de quem a frequenta há décadas e, ao mesmo tempo, despertar a curiosidade dos mais jovens.
“Amamos o que fazemos e queremos continuar cuidando do Imperial da melhor maneira possível. E, se um dia ele estiver em outras mãos, esperamos que quem vier depois de nós tenha o mesmo carinho e respeito por essa história. O maior legado que podemos deixar é o de uma tradição que soube permanecer viva”, conclui Sergio Chueh.
Serviço
Restaurante Imperial
Rua José Loureiro, 111, sobreloja, Centro, Curitiba/PR
Almoço: segunda-feira a sábado, das 11h às 16h30 (cozinha até às 15h30)
Jantar: terça a sexta-feira, das 18h às 23h (cozinha até às 22h30)
Reservas: (41) 3222-1323
Redes sociais: @restauranteimperial1966